10 de dezembro de 2015

Let me hit the gas to go high Speed
Cos' everything just happened at once





'cause I'm coming home

4 de setembro de 2015

welcome back

não consigo um diagnóstico preciso.

sondas pelo corpo dentro. desconforto e dor (apesar de nos dizerem sempre "relaxe" ou "descontraia"). caras preocupadas, reflectidas nos monitores. o corpo exposto (vista a bata com a abertura para trás, por favor) e, a esta luz, tão frágil, tão denso. todas as falhas expostas. é uma febre, não páro de explicar. uma febre que me toma o corpo, que me atira à cama. é uma fome sem fim.

e, novamente, as sondas. os resultados em envelopes fechados: "anomalia na amostra". é uma febre, repito, que me deixa acordada dias a fio. uma corrente eléctrica que passa pelo corpo (sem nunca descobrir onde é o ponto de entrada).

onze da noite, começa a subir pelo corpo. meia noite, o coração na garganta. uma da manhã, lençóis e cobertores no fundo da cama, nada contra a pele. duas da manhã. sair de casa, sentir a noite húmida contra mim. as ruas quietas e esta febre que me consome por dentro.

a pulsação a acelerar no pulso.

não vale a pena procurar mais. o seguro não cobre exames extra e tu estás sempre por perto apenas o tempo suficiente para o contágio.




take a chance

25 de julho de 2015

primeiro beijo

Ah, mas aquele beijo... Aquele primeiro beijo... O puxar-te para mim. A surpresa, a consciência do que se está a passar, o teu braço a rodear-me a cintura, a eliminar entre nós a impossível distância. 

Mas o beijo. Aquele beijo. Não outro qualquer.
Aquele que se sente no fundo da barriga, no início do sexo. Todos esses músculos se contraem. E é assim que tu sabes. Essa sensação rara. Tão rara que, naquele instante, tens a certeza, sabes bem que não a voltarás encontrar. Tu sabes. Sabes sempre.

 O beijo. O teu beijo. Sempre, sempre, sempre o primeiro. Sempre inesperado e sempre incerto.


E, se como o José Mário Branco diz, só se pode ser salvo pelo amor, diz-me onde fica a salvação entre nós se isto não é amor, se isto é nada. Se isto é tudo. Balão de oxigénio, explosão de festa, um fôlego inteiro.

 Não é por acaso que nem todas as tempestades têm trovoada. E não é por isso que não deixam de enviar as gaivotas para terra,

29 de maio de 2015



esta história não tem espaço para crescer. nasceu deficitária. demasiado grande para o espaço que ocupa. sobra dos limites que tem. e eu não sei o que fazer com aquilo que fica. com pequenos pedaços de histórias, fragmentos da vida que nunca irei ter.

espreitamo-nos mutuamente, por cima do ombro. reconhecemo-nos, pelo canto do olho. pelo cheiro. pelo toque. fazemos pinturas de guerra e os gritos que damos servem apenas para provocar medo no outro. vigiamo-nos, como se vigia um predador. porque sabemos, afinal de contas, que o único final para esta história é este. destruirmo-nos numa noite como esta em que a lua mente, em que há uma janela aberta, onde uma cortina ondula, o homem passa, em direcção ao camião, olhando-nos desconfiado e o calor cola-se à pele, o sabor do sexo, no fundo da garganta. é o fim. nós sabemos que sim. nunca será o fim. nós sabemos que não.

15 de fevereiro de 2015

Regresso ao lugar onde aprendi a andar. Faz parte da minha mitologia privada que um dia, me levantei e andei.

Não se vê nada à nossa volta. O nevoeiro é demasiado espesso. Não sabemos sequer se algum dia voltaremos a ver: o rio, no horizonte da janela; a cidade, que do topo do monte parece não ter fim; a lua sobre os telhados, as constelações a traçar o futuro. 

Volto a sentir a areia por debaixo dos pés. Não é que tenha desaprendido a andar. É que a ondulação das dunas ainda persiste na planta onde o corpo assenta. 


Nada temas das lágrimas que escorrem pelo meu rosto. É apenas o vento que me corta o olhar. 

2 de fevereiro de 2015

o chão a fugir-nos debaixo dos pés. ou talvez tenha sido apenas um passo em falso. talvez seja apenas um esticão do corpo, enquanto durmo - o mecanismo de defesa natural do organismo, para se certificar de que continua vivo. ou talvez tenha sido apenas um tropeção, no meio da rua. as saias espalhando-se pela calçada portuguesa. toda a gente sabe que a calçada nacional, os quadrados brancos e azuis escuros, são um perigo para as pernas nacionais, que se querem pequeninas, como a sardinha, toda a gente sabe.

sim, certamente terei sido eu. afinal de contas, as rótulas têm as ligações trocadas, os pés poucos pontos de apoio e a anca um defeito infligido à nascença que agora, especialmente agora, não me deixa avançar com a certeza necessária, rua abaixo.


20 de janeiro de 2015

não sei como aconteceu. o coração desacelera agora, depois de tudo.

mas primeiro bateu por fora da pele, do lado do mundo real. as miudezas expostas numa mesa, coberta pelo pano verde da cirurgia. o sangue, cujo tipo nunca lembro e que impossibilita sempre as transfusões e as dádivas. o sangue era abundante e escorria-me pela perna esquerda. disso lembro. a mancha que ficou na carpete, branca e felpuda. a ansiedade em ti. mãos ocupadas, longe do corpo, olhar sempre o horizonte é o truque de quem enjoa na estrada.

mas o sangue já corre normalmente nas veias. o coração bombeia-o no seu vagar de músculo cansado, de quem regressou à cavidade apropriada, ao tamanho e à função normal. só a cicatriz permanece, a celebrar o acidente. intocada e intocável.

17 de dezembro de 2014

dores de crescimento



“Sometimes I can feel my bones straining under the weight of all the lives I’m not living.”
—Jonathan Safran Foer, Extremely Loud and Incredibly Close